Até quando vamos fingir que está tudo bem?
Confesso que hesitei em escrever. Mas me pronuncio por causas muito menores, então por que me calaria agora? Meu objetivo aqui não é agradar, conquistar fãs ou criar inimizades. Escrevo por convicção. Errado seria mudar de opinião para satisfazer os outros.
Desde 2006, mesmo que de forma indireta, minha trajetória profissional esteve voltada à Segurança Pública. Na época em que inauguramos a plataforma DpOnline da Polícia Civil do Espírito Santo, tive o privilégio de conhecer profissionais dedicados, além de contar com um mentor intelectual que foi essencial na construção da minha monografia.
A partir de 2007, aprofundei ainda mais esse vínculo, convivendo de perto com as forças militares do Estado. Militares da PM e do Corpo de Bombeiros com quem compartilhei aprendizado, desafios e, acima de tudo, um sentimento genuíno de respeito e admiração pela missão que exercem. Em 2011, estive mais próxima ainda, na intersecção entre segurança e justiça, atuando diretamente no sistema prisional onde floresceu minha paixão definitiva por essa área tão sensível e estratégica.
Desde o início do movimento atual, estive solidária aos profissionais da segurança pública. Apoiei, e sigo apoiando, a causa. Sim, as proporções do impasse aumentaram, mas essa responsabilidade não é dos policiais, e sim do governo. É também da sociedade, da qual faço parte, que por muitas vezes se omite ou se cala. Que só se importa quando o problema bate à porta. Que normaliza o crime, o furto, a receptação, como se fossem consequência do acaso, mas não são.
A polícia não é mãe nem professora para ensinar o certo e o errado. Isso se aprende em casa. A ocasião não faz o ladrão: a ocasião facilita o crime; o ladrão já estava pronto.
É o mesmo povo que, por anos, viu o vizinho ostentar armas, vender drogas, e nunca fez uma denúncia sequer. Agora, diante do caos, grava vídeos da guerra urbana e joga a culpa na polícia.
E é esse mesmo povo que votou em um governo autoritário, que agora falha em assumir sua responsabilidade. Gabriel O Pensador já dizia:
"Não adianta olhar pro céu,
com muita fé e pouca luta.
Você pode, você deve, pode crer...
Até quando você vai levar porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?"
O Executivo estadual age de forma lenta, omissa, sem pressa alguma de resolver um conflito que atinge diretamente a segurança da população. As falhas não nasceram agora. São estruturais, acumuladas ao longo dos anos e vieram à tona porque vozes corajosas decidiram não mais se calar.
Faltam equipamentos básicos, viaturas, combustível, alimentação adequada. Faltam condições mínimas de trabalho. Faltam respeito e valorização. Se não há segurança para quem protege, como garantir segurança para o cidadão?
Nunca vivemos uma crise como essa em nossa história recente. Uma tragédia que se arrasta por culpa de um governo inflexível, intransigente e politicamente paralisado. Mas a esperança resiste. Ela está nos praças, nos oficiais, nas demais categorias e também no povo que ainda acredita na possibilidade de um acordo justo e humano.
Enquanto isso, o governo age com covardia: ameaça, pune, silencia. Ignora a pauta legítima dos manifestantes e simula reuniões para enganar a população. Divulga que tudo está voltando ao normal. Mas não se engane, capixaba. Nada está normal.
O transporte segue comprometido. O IML está superlotado. O SAMU, saturado. E a insegurança se alastra.
O que estamos vivendo hoje afetará não apenas o presente, mas deixará marcas profundas no nosso futuro. Este desgoverno será lembrado e escrito com destaque nas páginas da história.
Por isso, suplico às autoridades: decidam com responsabilidade, com sabedoria, com humanidade. Ainda há tempo de preservar vidas dos cidadãos e dos policiais. O momento exige ação, diálogo, solução.
Queremos uma polícia valorizada. Queremos respeito ao cidadão.
Queremos segurança, não abandono.
Excelente texto!
ResponderExcluirParabéns.
ResponderExcluirUm texto explicativo e muito convicto de um governo sem diálogo.